Tear de Jacquard
Cartões perfurados passaram a comandar o desenho do tecido, antecipando a ideia de um programa separado da máquina que o executa.
Contexto histórico
Lyon vivia da seda e de padrões complexos que exigiam um ajudante puxando cordéis a cada passada. O trabalho era lento, caro e sujeito a erro. Jacquard reuniu ideias anteriores de Bouchon, Falcon e Vaucanson num anexo que se encaixava no tear existente: uma cadeia de cartões perfurados decidia quais fios do urdume subiam.
O governo francês comprou a patente e liberou o uso, pagando a Jacquard uma renda por cada tear em operação. Tecelões de Lyon protestaram, temendo o fim do ofício do puxador de cordéis. Em poucas décadas, porém, o jacquard se tornou o padrão da seda europeia e depois de outros tecidos decorativos.
Como funciona
Cada cartão corresponde a uma passada. Agulhas tentam atravessá-lo: onde há furo, a agulha passa e o respectivo fio do urdume sobe; onde o cartão é maciço, a agulha recua e o fio fica baixo. A cala assim formada recebe a trama, e o próximo cartão avança. Trocar a corrente de cartões troca o desenho sem alterar a mecânica do tear. O padrão deixa de estar nas mãos do artesão e passa a estar numa memória perfurada, reutilizável e copiável.
Impacto na sociedade
A seda deixou de ser um artigo quase exclusivamente aristocrático. Padrões que levariam semanas de montagem manual puderam ser repetidos com fidelidade. A indústria de Lyon ganhou competitividade, e o princípio se espalhou para lã, algodão e tapetes.
O legado maior está fora do tear. Cartões perfurados inspiraram o tear estatístico de Hollerith e, por essa via, a computação do século XX. Oficinas de cartão viraram ofício novo: o desenhista passou a pensar em furos. Poucas máquinas artesanais deixaram metáfora tão duradoura.
Curiosidade
Um retrato de Jacquard tecido em seda com milhares de cartões ficou tão nítido que Charles Babbage o guardou como prova de que uma máquina podia seguir um programa complexo sem improviso humano a cada passo.
Por que esta posição. Entra no ranking porque acrescenta informação à força. Não só acelera o pano: separa o desenho da mecânica. Essa cisão entre instrução e execução é o salto conceitual que a era industrial deu além do vapor e da fiação.