Matadouros de Cincinnati e Chicago já moviam carcaças em trilhos no século XIX; relógios e armas flertavam com peças intercambiáveis. Henry Ford e a equipe de Highland Park, em 1913, inverteram o problema do automóvel: em vez de times circulando em torno de um carro parado, o carro é que avançava. Esteiras, escorregadores e cronômetros fecharam o ciclo em horas, não em dias.
Grandes invenções do século XX
Criações do século passado que ainda organizam fábricas, materiais, guerra defensiva, lazer e consumo.
O século XX costuma ser lembrado por um punhado de ícones — o voo, o antibiótico, a tela, a rede. Este ranking desvia de propósito. Não há transistor, penicilina, avião pioneiro, televisão, computador, internet, vacina nem automóvel: essas peças pertencem a outras listas. Também não há arma nuclear. O que resta não é resto. É o século da linha, do plástico, do eco no céu, do lazer eletrônico e do crédito de plástico.
A pergunta aqui é outra: o que, inventado entre 1900 e 1999, ainda manda no chão de fábrica, no material das coisas, na defesa que ouve antes de ver, no sábado à tarde e na fila do caixa. Montagem, baquelite, radar, náilon, código de barras e cartão de crédito não competem em glamour com o foguete. Competem em presença. O século passado ainda está no bolso e na prateleira.
Leo Baekeland, químico belga-americano, buscava um substituto da goma-laca quando, em 1907, controlou a reação de fenol com formaldeído. O resultado era uma resina que, uma vez curada no calor, não amolecia de novo. Patenteou, fundou a Bakelite Corporation e vendeu o material a fabricantes de interruptores, rádios, telefones e joias de bijuteria.
A ideia de detectar objetos por reflexão de ondas é anterior à guerra. O salto britânico veio quando Robert Watson-Watt e sua equipe, entre 1935 e 1940, transformaram o princípio em cadeia costeira — o Chain Home — a tempo da Batalha da Grã-Bretanha. Não foi gênio isolado: físicos, operadores da WAAF e engenheiros de pulso fecharam o sistema.
Wallace Carothers, na DuPont, vinha estudando polímeros lineares quando, em 1935, obteve uma poliamida capaz de ser fiada em fio elástico e resistente. A empresa batizou de nylon e, em 1938–1940, lançou a meia feminina como espetáculo de consumo. A Segunda Guerra desviou a produção para paraquedas, cordas e pneus.
Norman Woodland e Bernard Silver patentearam em 1952 um código inspirado no Morse, desenhado na areia, disseram, em círculos concêntricos. Faltavam laser barato e consenso de varejo. Duas décadas depois, supermercados, a IBM e um comitê da indústria fixaram o UPC. Em 1974, um pacote de chiclete Wrigley passou no primeiro caixa em Ohio.
Alcançar a órbita pede cerca de 28 mil quilômetros por hora e foguetes em estágios. A equipe liderada na prática por Sergei Korolev pôs o Sputnik 1 no céu em outubro de 1957: 58 centímetros, bipes na rádio, 21 dias de bateria. O choque político foi maior que o instrumento. A corrida espacial e a meteorologia orbital nasceram desse susto.
O quartzo já media tempo em laboratórios desde os anos 1920. O problema era encolher o oscilador, o circuito e a bateria até o pulso. A Seiko apresentou o Astron em 25 de dezembro de 1969; pesquisas suíças e americanas corriam em paralelo, mas o relógio de pulso comercial chegou com o nome japonês.
William Higinbotham, em 1958, montou no Brookhaven National Laboratory um tênis de osciloscópio para visitantes, o Tennis for Two. Não comercializou. Ralph Baer, nos anos 1960, desenhou o jogo na televisão doméstica e chegou ao Odyssey da Magnavox em 1972. No mesmo ano, Nolan Bushnell e a Atari lançaram o Pong em bares. A briga de patentes durou décadas; o hábito, mais ainda.
A Zenith experimentou, no início dos anos 1950, um controle com fio — o Lazy Bones — que tropeçava no tapete. Eugene Polley criou o Flash-Matic, de luz; Robert Adler, em 1956, o Space Command, que usava ultrassom de hastes batidas, sem pilha. Famílias passaram a zappear. A televisão, que este ranking não inclui como invenção, ganhou um órgão periférico decisivo.
Frank Whittle patenteou ideias de turbojato nos anos 1930; Hans von Ohain fez voar o Heinkel He 178 em 1939. A guerra acelerou caças a reação. O transporte civil chegou com o de Havilland Comet em 1952 e, após tragédias de fadiga de fuselagem, com o Boeing 707 e rivais no fim da década.
No Royal Aircraft Establishment britânico, por volta de 1960, equipes lideradas por figuras como William Watt desenvolveram fibras de carbono de alto módulo a partir de polímeros precursores. Empresas como a Rolls-Royce tentaram pás de turbina — e aprenderam, com falhas caras, os limites da novidade. A indústria aeroespacial e, depois, a esportiva adotaram o compósito com mais cautela.
O Diners Club, em 1950, partiu de uma lenda de jantar sem carteira e de uma rede de restaurantes que aceitavam um cartão de cobrança mensal. Era charge card: o saldo se pagava de uma vez. Em 1958 o Bank of America lançou o BankAmericard na Califórnia — crédito rotativo, fatura, juros — e, ao licenciar o sistema, plantou o que viraria Visa. A Mastercard nasceu de um consórcio rival.